Tabaco, álcool e cocaína Revista Superinteressante especial - Texto de Pedro Biondi
O cigarro de tabaco Como levar desvantagem em tudo
O tabaco é a mais insossa das drogas. Se a cocaína gera euforia e onipotência, o álcool alegra e desinibe e o LSD conduz a “viagens” sem destino, os efeitos da nicotina não podem ser chamados de “doces venenos”. Ao contrário das outras drogas, o coquetel de aproximadamente 4000 substâncias contidas no cigarro – quase todas nocivas à saúde – é mais consumido por causa da dor que causa na ausência do que pelo prazer que proporciona na freqüência. As primeiras tragadas são, em geral, acompanhadas de náusea, tontura e ânsia de vômito. É preciso um certo esforço para “aprender a fumar”. Instalado o vício, nenhum fumante inveterado jura sentir-se mais vivaz, diligente, tranqüilo ou moderado à obra do cigarro. Mas, se não fumar, o dependente fica zonzo, ansioso, negligente e glutão.
A nicotina atua como estimulante do sistema central. No início, aumenta a vivacidade, reduz a ansiedade, expande a concentração e diminui o apetite. A longo prazo, o fumante não sente esses efeitos, mas sofre com a falta da nicotina. Para manter o equilíbrio emocional, ele fuma e se intoxica com substâncias como monóxido de carbono, o mesmo gás letal do escapamento dos carros, presente na fumaça do cigarro. A nicotina estreita os vasos sanguíneos e libera os hormônios que aumenta a pressão arterial – uma das causas do infarto. O alcatrão se acumula nos pulmões e causa enfisema, uma doença grave e incurável. O cigarro é ainda o responsável por 90% dos casos de câncer no pulmão e 30% de todos os tipos de câncer
Os homens-chaminés
Fumar ainda era um hábito raro na Europa quando se tornou moda nas altas-rodas graças às narinas de Sir Walter Raleigh, um guerreiro, historiador e poeta inglês. Atraído pela lenda da cidade de ouro de Eldorado, ele explorou a ilha de Trinidad, no Caribe, e o Rio Orenoco, na atual Venezuela. Em 1595, fumou o cachimbo da paz com índios norte-americanos nas Ilhas Roanoke e levou a nicotina – e a batata – para Londres.
Como um playboy renascentista, alvoroçava seus pares na corte da rainha Elizabeth 1 ao dar baforadas num longo tubo de madeira. A novidade assustou seu criado. Ao ver o patrão soltar fumaça pelo nariz, o serviçal acorreu com uma jarra de água para apagar o “fogo”. A novidade se espalhou rapidamente pela Europa. Os médicos, notando os efeitos relaxantes da nicotina, receitavam o tabaco como remédio. Os cigarros que no início eram pequenos charutos embrulhados em papel, só se tornaram uma grande indústria no final do século XIX.
A vingança contra os caras-pálidas
O cachimbo da paz existiu mesmo. Os povos do Novo Mundo tinham o hábito de oferecer a visitantes de intenções desconhecidas a oportunidade única de soltar fumaça pelas narinas. O uso pioneiro do fumo e do cachimbo é atribuído aos maias, o que lhe confere uma origem aristocrática. Esse povo inventivo e refinado, que dominou a América Central durante quinze séculos, é tido como a primeira civilização do Hemisfério Ocidental. Os maias usavam o tabaco apenas em rituais. Dois marinheiros de Colombo, Rodrigo Jeres e Luiz de Torres, foram os primeiros europeus a esquentar os pulmões com a combustão da planta nativa da América. Eles deram baforadas num pau oco enfeitado com penas coloridas de pássaros selvagens e, entusiasmados, levaram mudas nos porões das caravelas. Diz a lenda que a Inquisição não gostou dos homens-dragões e pelo menos Rodrigo Jeres foi preso por feitiçaria. Talvez por isso, a novidade primeiro fez sucesso na Ásia e só um século depois enfumaçou a Europa. Em 1560, um embaixador da França em Portugal, Jean Nicot, contrabandeou mudas para Paris, com a advertência de que fumar fazia bem à saúde: curava verrugas e gangrena. Nicot deu nome à planta, batizada cientificamente pelo naturalista sueco Carl Linné (1707-1778) de Nicotiana tabacum em sua homenagem.
O Tabaco é uma planta nativa das américas
O francês também foi imortalizado no nome do alcalóide, a nicotina, isolado tempos depois. Cultivado no sul dos Estados Unidos e no Caribe, o tabaco logo de tornou o principal produto de exportação das colônias do Novo Mundo.
Ficha técnica:
• Nome: Nicotina(cigarro, charuto, cachimbo).
• Classificação: Alcalóide estimulante do sistema nervoso central.
• De onde se extrai: Das folhas de mais de sessenta espécies de Nicotina. As mais usadas são a rústica e a tabacum. A primeira é mais forte, mas a tabacum tornou-se preferida por seu aroma e sabor agradáveis.
• Origem: América. Os maias, que constituíram um império na América Central, fumavam as folhas do tabaco em longos cachimbos de junco.
O glamour do vício
Hollywood fez do ato de fumar um gesto de elegância, um símbolo de status, uma cerimônia de sedução. Estrelas como Marlene Dietrich, Rita Hayworth, Lauren Bacall e Grace Kelly faziam filmes com e script e o cigarro na ponta da língua. Os magnatas apareciam sempre com um charuto na boca e , nos filmes de bangue-bangue, era comum o herói enrolar, solitário, o seu próprio cigarro.
Humphrey Bogart em Casablanca, de 1942, mantém um muro de fumaça entre ele e Ingrid Bergaman. Bogart morreu de câncer no esôfago, em 1957, mas os estúdios não largaram o tabaco. A Associação Americana do Pulmão encontrou personagens fumantes em 77% de 133 filmes analisados. Influenciados pelo cinema, gerações de adolescentes, no mundo todo, adotaram o cigarro como rito de passagem para a vida adulta – e não largaram mais.
A ofensiva antitabagista tirou todo o encanto do fumo nas telas. O cigarro sobrou para os tipos ansiosos e vilões como a Cruela Malvina dos 101 Dalmátas, dos Estúdios Walt Disney.
Guerra ao tabaco
O cigarro está sob fogo no mundo inteiro. De um lado, os não-fumantes usam seus pulmões sadios para gritar contra as baforadas alheias. De outro, governos de pelo menos 120 países já impuseram restrições à publicidade ou ao ato de fumar em lugares públicos. A maioria adota legislação moderada, a exemplo do Brasil: a propaganda é limitada na TV, entre as 21h e as 6h, mas deve conter advertência de que fumar faz mal à saúde. Cada vez mais, o fumo está sendo proibido em recintos públicos, como os restaurantes e aviões (no Brasil, só na 1ª hora de vôo). Na Inglaterra, a propaganda é proibida na TV, e na Itália em qualquer lugar – até mesmo nos carros da Fórmula 1 . nos Estados Unidos, só se pode fumar em paz na rua ou em casa, se for própria,. Pois há proprietários que não alugam para fumantes.
Autodestruição pela fumaça
O cigarro é a droga mais perigosa do planeta – mata mais do que todas as outras juntas. De acordo com a Organização de Saúde, 3 milhões de mortes por ano são causadas por doenças relacionadas com o tabaco. Os médicos atribuem ao cigarro 90% dos casos de câncer de pulmão e o apontam como causador ou agravante em 40% das doenças do coração. Veja os males que ele provoca:
• Cérebro: Quem fuma tem 1,5 a 2,5 vezes mais possibilidades de sofrer um derrame cerebral.
• Estômago: O aumento da acidez, causado pelo tabaco, favorece o surgimento de úlceras, uma erosão na mucosa.
• Pulmões: Enfisema – doença fatal provocada pela destruição das paredes pulmonares. Bronquite. Câncer.
• Sistema Nervoso: Lesões cerebrais, epilepsia, psicose, demência.
• Entupimento da Artérias: O cigarro facilita a produção de placas de gordura que podem obstruir as artérias do corpo, inclusive no coração, causando isquemia (diminuição do oxigênio no sangue) e até infartos.
• Boca: Câncer de garganta.
• Esôfago: Acidez na boca, câncer.
• Coração: Hipertensão arterial, arteriosclerose, miocardiopatia (degeneração do músculo cardíaco).
• Fígado: Cirrose – endurecimento e degeneração do tecido.
• Pâncreas: Pancreatite – inflamação na qual o pâncreas libera suas enzimas no próprio tecido.
• Estômago: Gastrite, causada pela irritação da mucosa estomacal.
Álcool: um líquido sedutor e corrosivo
O álcool é uma droga tão antiga e poderosa que tem até deus mitológico: Dionísio para os gregos, Baco para os romanos.o líquido-síntese da água e do fogo, celebrado pelos poetas, boêmios e escritores românticos, remonta a milhares de anos antes de Cristo. A Bíblia registra um porre de Noé. É a droga mais devastadora da humanidade, uma sereia que seduz e em seguida afoga suas vítimas.
Beber pode ser agradável sem prejudicar a saúde. O primeiro efeito é o bem-estar. Um drinque entorna alegria, desinibição, segurança. O álcool é uma substância que ultrapassa facilmente as membranas celulares e em minutos encharca todos os órgãos e tecidos. Mesmo o cérebro, protegido por fitros bioquímicos, é imediatamente invadido. Com uma dose, o fluxo sanguíneo aumenta, o coração acelera e há uma melhoria dos reflexos. A memória e a concentração ficam mais aguçadas. A maioria das pessoas fecha a garrafa nessa fase, mas 10% dos que bebem seguem em frente, e de estimulante o álcool passa a depressivo, de recreação torna-se doença. Os principais órgãos adaptam-se à devastação da bebida e pervertem suas funções originais. O fígado, que converte o álcool num produto ainda mais tóxico, o acetaldeído, fica escravo da bebida e acaba negligenciando o metabolismo dos alimentos, o que leva ao acúmulo de toxinas e de gorduras no sangue.
Os Limites para quem quer beber sem abusar: Ao contrário das outras drogas legalmente proibidas, o álcool comporta uma “margem de segurança” entre a sobriedade e a embriaguez. Um adulto dificilmente fica bêbado com um copo de cerveja, mas duas ou três tragadas de maconha costumam alterar a cabeça de muita gente. Os médicos consideram moderado um consumo de até 40 gramas de álcool. Para saber quantas gramas você engole, faça a seguinte conta: volume de bebida consumida (em mililitros) x o teor alcoólico x 0,8. em seguida, divida o resultado por 100.
Sintomas que identificam o alcoólatra
As sensações entre o último e o próximo gole determinam se uma pessoa tem uma doença grave e universal, catalogada pela Organização Mundial da Saúde com alcoolismo. No ano passado, os hospitais brasileiros registraram 80 000 internações motivadas pela bebida. Existem 15 milhões de alcoólatras no país. Dos dependentes internados em clínicas, 70% voltam a beber. A maioria das vítimas se recusa a admitir o problema. Garante que “bebe socialmente” e pode parar quando quiser. É delírio de bêbado. O mal não é uma fraqueza moral e sim uma enfermidade crônica que, de trago em trago, devasta a mente e o corpo.É ou está se tornando alcoólatra quem consome álcool compulsivamente, acorda nervoso, com náuseas e melhora depois de trago, entorna antes do almoço, sente-se mais seguro e apto depois de um copo, ou esquece o que fez na bebedeira.Fatores hereditários, costumes sociais e o estresse empurram os indivíduos para a bebida, e a freqüência e o volume determinam a dependência. O álcool se torna o principal combustível físico e espiritual do dependente. A maioria pode passar dias sem comer, nutrindo-se da alta dose de energia da bebida. A sobriedade é um tormento. Se não beber, o alcoólatra tem crise de abstinência. Alterá-se, irrita-se, ouve vozes, vê bichos, sofre temores e até mesmo convulsões. Para essa doença s’existe um remédio conhecido como: abstinência total.
Ficha técnica:
• Nome: Álcool etílico
• Classificação: Depressor do sistema nervoso central.
• De onde se extrai: O álcool e resultado da ação de bactérias (fermentação) sobre açúcares presentes no mel, em cereais e em algumas frutas.
• Origem: Mundial. Os fermentados surgiram na Pré-História. Existem registros da fabricação de cerveja no Egito que datam de 3500aC. Os destilados já eram fabricados na Índia há quase 3000 anos.
O amigo do coração
Um cálice de vinho às refeições enleva a alma e calibra o coração. Inúmeras pesquisas, das quais a mais famosa é a de S. Renaud e M. De Lorgeril, publicada na revista científica Lancet em 1992, sugerem que o álcool e outros componentes do vinho reduzem o risco de infarto. O levantamento indica que as doenças coronarianas são menos comuns na França do que em outros países europeus, apesar de todos terem os mesmos fatores de risco, como colesterol e pressão altos, gordura, tabagismo e sedentarismo.
A diferença é o gole diário de vinho. Outra pesquisa, no Instituto do Coração das Clinicas de São Paulo, em 1996, revelou que coelhos aos quais foi dado vinho junto com a comida tinham uma incidência menor de arteriosclerose do que os que tomavam apenas água ou suco de uva. A dose recomendada – só para adultos – é de dois ou, no máximo, três cálices de vinho tinto por dia.
Saúde Pública quando o prazer vira doença
Mais que um embate entre o vício e a virtude, o estonteante consumo das drogas legais mais comuns, o álcool e o cigarro, é , no Brasil, um grave problema de saúde pública. A dupla vicia, causa transtornos econômicos e sociais e mata. Uma projeção das estatísticas americanas indica que 10% dos brasileiros são alcoólatras e 35%, fumantes. Em geral, o individuo associa as duas práticas – com a ressalva de que, se fumar é vício, beber demais é doença classificada pela Organização Mundial de Saúde. O mal só se expande. Uma pesquisa feita em 1997 com estudantes do 1.º e 2.ºgraus das dez maiores capitais brasileiros revelou que 15% fazem “uso freqüente” de álcool e 6,2% de tabaco. Os males causados pelas drogas legalizadas impõem custos pesados aos serviços públicos de saúde. O fumo causa ou ajuda a causar cerca de 25 doenças, como as cardiovasculares, que matam 300 000 brasileiros por anos. As estatísticas são precárias, mas mapeamentos localizados indicam que, além de devastar a saúde, o álcool é um problema social. Segundo o presidente nacional doa AA (Alcoólicos Anônimos), o psiquiatra Luiz Renato Carazzai, o álcool lota os prontos - socorros nos fins de semana e esvazia as empresas nas segundas-feiras (os alcoólatras faltam dez vezes mais nesse dia do que os que não bebem). É responsável por metade dos internamentos em clinicas psiquiátricas e por 90% do total de internamentos por problema de droga. A pesquisadora Gilka Fígaro Galtas, da Faculdade de Medicina da USP, concluiu que a bebida causa de 80% a 90%dos casos de câncer de boca.
A palavra alcoolismo
Foi cunhada pelo médico sueco Magnus Huss, em 1849, para definir o conjunto de males vinculados ao consumo excessivo e prolongado de bebidas. É uma doença crônica, cujos efeitos podem se transmitir para os descendentes por meio da “síndrome alcoólica fetal”- uma degeneração que se manifesta em filhos de mães dependentes da bebida, caracterizada por má-formação e retardamento mental, entre outras anomalias. A única cura possível do alcoolismo é a total abstinência.
Cocaína: o pó da Onipotência
A cocaína é droga da euforia. Cheirada, injetada ou fumada, ela incute em seus usuários fantasias de força, poder, beleza e sedução. Nasceu nos Andes, onde os indígenas têm o costume de mascar a folha da coca como estimulante. Entrou na Europa em forma de um pó branco, resultado do refino da planta sul-americana, e, em menos de um século se tornou símbolo do estilo de vida frenético dos jovens executivos do mercado financeiro.Hoje, entretanto, suas formas são os pobres, que passaram a ter acesso a droga com a difusão do crack – sua versão fumável e barata, que causa dependência quase instantânea. Uma escolha suicida.
Elixir mágico já vendido em farmácias
O efeito estimulante da coca, planta da qual se extrai a cocaína, já era conhecido pelos indígenas dos Andes muito antes da conquista espanhola, no século XVI. Mas seu consumo era rigorosamente controlado. Fora dos rituais religiosos, os únicos que podiam mascar as folhas eram os mensageiros, obrigados a correr a pé enormes distâncias , respirando o ar rarefeito da cordilheira.
Os espanhóis generalizam esse hábito ao distribuir coca aos nativos submetidos ao trabalho forçado nas minas.
A Europa só interessou pela planta em 1862, quando o químico alemão Albert Niemann conseguiu, em laboratório, produzir, a partir da coca,um pó branco – o cloridato de cocaína. No início, ele era vendido nas farmácias como remédio, mistura ao vinho.Só foi proibido na virada do século, quando os casos de morte pelo seu abuso começaram a assustar.
Mais do que a ilegalidade, o que levou a cocaína ao ostracismo foi o surgimento das afetaminas, mais baratas. Mas, na década de 70, a gangorra se inverteu. Os efeitos noviços das afetaminas “reabilitaram’a cocaína. Associada à ambição e ao dinamismo, ela se tornou a droga típica dos anos 80. passou a ser aspirada vorazmente por jovens angustiados e executivos pressionados pela competição nos negócios, os yuppies. Em festas, a oferta de pó pelos anfitriões se tornou um sinal de exibicionismo de novos ricos.
Ficha técnica:
• Nome: Cocaína, crack, merla, pasta de coca.
• Classificação: Alcalóide estimulante do sistema nervoso central.
• De onde se extrai: Folhas do arbusto Erythroxylon coca.
• Origem: Andes centrais (Bolívia e Peru).
• Formas de uso: Aspirada, fumada e injetada.
Uma paixão que durou pouco (Freud se iludiu com a cocaína)
Quem diria Sigmund Freud (1856-1939), o pai da Psicanálise foi um adepto da cocaína. Ele provou a droga pela primeira vez aos 22 anos no inicio de sua carreira médica e se entusiasmou por aquele misterioso pó que fazia esquecer o cansaço. Passou a receita-lo como remédio para diversos males, da depressão a cólica. Num texto de 1884, Sobre a Coca escreveu: "É como se a necessidade de comida e sono, que se faz sentir em algumas horas do dia, simplesmente sumisse”. Além de recomendar o pó à mãe e aos amigos exaltou suas propriedades em cartas apaixonadas à sua noiva, Martha – algumas delas, sob o efeito da cocaína, que bebia diluída em água e às vezes, injetava. A empolgação desapareceu diante da morte de um amigo ao qual havia receitado 1 grama de pó por dia. Freud abandonou a coca em 1887, aos 31 anos, e nunca mais a elogiou. Fez o que pode para que seus artigos sobre a droga fossem esquecidos da sua obra.
Euforia exige doses cada vez maiores
O cantor inglês Sting, ao lamentar a época em que cheirava cocaína, a definiu como “a mais patética das drogas, a maneira de Deus dizer que você já ganhou dinheiro demais”. Com a multiplicação dos casos de morte por overdose, a coca perdeu muito do seu atrativo como um símbolo de riqueza e de sofisticação. O avanço da heroína – que já conquistou o mercado europeu e se espalha pelo resto do mundo, inclusive o Brasil – é considerado um problema bem mais grave. Mas não se pode imaginar que o pó branco esteja saindo de cena. Uma estimativa da Organização das Nações Unidas de 1997 registra 13 milhões de usuários – duas vezes mais que em 1984.
A cocaína costuma causar um efeito de euforia e agitação intensa. Seus usuários se sentem autoconfiantes, com vontade de falar e de se movimentar. Com o uso freqüente, passam a necessitar de doses cada vez maiores para reviver as sensações agradáveis do inicio. Surgem sintomas de distúrbios mentais, como mania de perseguição e a irritabilidade. Lesões cerebrais graves podem aparecer com poucos anos de uso. O dependente de cocaína tem insônia e falta de apetite. Os casos de morte decorrem, quase sempre, de doses exageradas ou de mistura com outras drogas. No Brasil, seu uso pela via injetável, entre grupos de viciados que compartilham a mesma seringa, é um dos principais fatores de disseminação da Aids.
Ingrediente original
O nome do refrigerante mais popular no planeta não é uma coincidência. Inventada em 1894, a Coca-Cola tinha, de fato, cocaína em sua formula original – e deve muito de seu êxito inicial ao efeito estimulante provocado pela droga, que, na época circulava livremente. Um anúncio de 1888 sugeria: “Você vai ficar surpreso ao perceber como Coca-Cola reanima as mentes cansadas.”
Em 1903, os fabricantes tiraram a cocaína da receita e a substituíram por cafeína.
A devastadora escala do crack
O que preocupa mesmo as autoridades brasileiras não é tanto a cocaína em pó – mais consumida pelas classes de maior poder aquisitivo – e sim o crack, sua variante fumável, que vicia com apenas três ou quatro doses e faz efeito em menos de 10 segundos. Mais barato que a cocaína( uma dose custa cerca de 5 reais ), o crack está se alastrando no país com uma rapidez comparável à de sua ação no organismo. A “pedra”, como é conhecida, chegou à Grande São Paulo em 1988 e, em dez anos fez 120 000 usuários – o que , no caso, é quase sinônimo de dependentes. Na parte mais decadente do centro da cidade, o trafico criou uma espécie de feira livre de venda e uso da pedra, a Cracolândia. “Aqui todo mundo usa. A gente passa a noite pipando e de dia descansa” disse à Superinteressante uma moradora de rua, de 46 anos. Na Cracolândia, é comum encontrar meninas de menos de 18 anos se prostituindo em troca de crack ou de dinheiro para compra-lo. As maiores vitimas, em São Paulo, são os meninos de rua. Uma pesquisa do Cebrid com 138 crianças, em 1993, revelou que 48 delas fumaram crack naquele ano.Curiosamente, a droga é quase inexistente no Rio de Janeiro. Os traficantes de lá proíbem o crack, temendo que ele vicie os adolescentes que trabalham para o tráfico nos morros.
O crack surgiu nos Estados Unidos, no final dos anos 70. Era, no início, uma droga”de elite”, de uso restrito. Tornou-se uma epidemia ao entrar nos guetos miseráveis das cidades americanas, onde faz estragos entre os jovens negros e de origem latino-americana. Mas nem todos os viciados são pobres. O crack também seduz indivíduos de classe média e alta, atraídos pelo ambiente que envolve o consumo.
Mistura simples e mortífera
O crack custa menos do que a cocaína em pó porque é um produto mais grosseiro. As duas drogas partem da pasta da coca, obtida pela mistura das folhas esmagadoras com querosene e ácido clorídrico. O crack, em forma de pedra, é a própria pasta mistura com bicabornato de sódio. O nome imita o som das pedras queimando no cachimbo, geralmente improvisado, com um pedaço de antena de carro e um pote de iogurte. O efeito dura de 1 a 2 minutos. “É a droga com maior capacidade de criar dependência”, diz o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, diretor da Unidade de Álcool e Drogas da Universidade Federal de São Paulo.