
Freio nas bebidas em estradas
Jornal O GLOBO - 14 de maio de
2007 - Jailton de Carvalho
O governo planeja restringir ou até mesmo proibir a
venda e o consumo de bebidas alcoólicas em estabelecimentos
comerciais às margens de rodovias. A proposta da lei
seca nas estradas faz parte do Programa Nacional de Segurança
Pública e Cidadania, o PAC da segurança pública,
que o ministro da Justiça, Tarso Genro, apresentará
ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva no fim do mês.
Estudo recém-concluído pelo Instituto de Pesquisa
Brasileiro (Ipea) informa que o país perde, a cada ano,
R$22 bilhões em acidente de carro nas estradas, parte
deles provocada por uso excessivo de cerveja, cachaça
e uísque, entre outras bebidas.
- Os números mostram que os custos com acidentes nas
rodovias são impressionantes. A violência nas estradas
tem que ser tratada como uma questão de segurança
pública – afirma Tarso Genro.
Os R$22 bilhões calculados pelo Ipea correspondem a
quase três vezes o orçamento deste ano do Bolsa
Família (R$8,6 bilhões), maior programa social
do governo federal. Ou seja, com o dinheiro desperdiçado
nas estradas o governo poderia triplicar o número de
famílias – hoje em torno de 11 milhões –
atendidas pelo programa. Na conta do Ipea estão computados
gastos com transporte das vítimas, atendimento em hospitais,
conserto ou perda total de carros e até com a aposentadoria
de pessoas que , depois de acidentadas, são obrigadas
a deixar de trabalhar.
Em 2004, mais de dez mil mortos
O Ipea chegou a esses dados a partir das estatísticas
de 2004, quando foi registrado o envolvimento de 190 mil carros
em acidentes nas estradas federais. Os desastres mataram 10.186
pessoas e deixaram nada menos que 90 mil feridas. Entre os mortos,
mais da metade sequer chegou a ser levada a algum hospital,
tal a violência do acidente. A guerra rodoviária
daquele ano atingiu a assustadora marca de 13 acidentes Poe
hora ao longo de 307 dias, conforme o quadro analisado pelos
técnicos do instituto.
Com base nesse levantamento, o ministro da Justiça decidiu
encarar a violência nas estradas como questão de
segurança pública e não de mera fiscalização
de trânsito. A partir daí, a equipe de Tarso Genro
começou a preparar um projeto de lei para coibir o comércio
e o consumo de bebidas alcoólicas. A idéia inicial
do ministro é proibir completamente o comércio
de bebidas em estabelecimentos localizados à beira das
rodovias. Mas se a proposta de implantar uma lei seca em áreas
específicas for considerada inviável, o ministro
considera necessário pelo menos criar severas restrições
à venda de bebidas.
A repressão ao consumo de bebidas alcoólicas
ficará a cargo da Polícia Rodoviária Federal.
Pela proposta, a Polícia Rodoviária terá
que aumentar o número de postos instalados ao longo das
estradas. Para Tarso, a presença maciça da polícia
e a diminuição do consumo de álcool deverá
diminuir o número de acidentes.
Policiais receberão
melhor treinamento
O Programa Nacional de Segurança Pública e Cidadania,
o PAC da Segurança, prevê ainda a criação
de incentivos a formação de polícias comunitárias,
o treinamento sistemático de polícias civis e
militares e a disseminação do uso de armas de
baixa letalidade. Tarso Genro entende que a constituição
de polícias comunitárias, com policiais altamente
preparados, é um importante instrumento para resolver
pequenos conflitos sociais e, a partir daí, reduzir brigas
e mortes violentas.
Os programas de qualificação das polícias
e o aumento da repressão deverão estar articulados
com programas sociais específicos de cada comunidade,
principalmente daqueles de amparo a jovens de baixa renda em
áreas de risco. Segundo Tarso, são experiências
que deram bons resultados em algumas cidades no país
e no exterior e que, se difundidas pelos Estados, poderiam render
bons frutos em âmbito nacional.
São programas a serem criados de acordo com as peculiaridades
de cada cidade ou região. O governo fará a proposta
e oferecerá parte do financiamento. Os governos estaduais
terão de decidir se implementam ou não o programa.
- Se alguns Estados não quiserem, não aplicarão
(os projetos), Mas aí , os governadores é que
vão responder – disse Tarso.
O ministro reafirmou com o presidente Lula o compromisso do
governo federal de não contingenciar as verbas do orçamento
deste ano destinadas à segurança. Mas a regra
só será válida para repasses de recursos
a Estados que também deixarem fora do contingenciamento
as verbas próprias da segurança pública.
A proposta do Plano Nacional de Segurança pública
surgiu após novo surto de crimes bárbaros, no
início deste ano. Mas o ministro avisa que o programa
não surtirá efeito imediato. Para ele, o objetivo
primordial é a reconstrução da estrutura
de segurança pública no país. – Não
são projetos espetaculares, de efeitos imediatos. São
medidas que vão produzir resultados em três anos
- disse.
Entidades e parlamentares apóiam
medida
BRASÍLIA. O vice-presidente da Confederação
Nacional do Transporte (CNT), Newton Gibson, disse que a entidade
apóia a decisão do governo de tentar restringir
a venda de bebida alcoólica nas rodovias federais. Ele
afirmou que os motoristas se excedem na bebida, provocando acidentes
nas estradas.
- É uma medida que tem todo o apoio da confederação.
A venda de álcool nas estradas é problema muito
sério. Os motoristas se excedem e risco é enorme
- disse Newton Gibson.
- O dirigente da CNT afirmou ainda que a venda deveria ser
proibida também até para quem não está
dirigindo.
- O veto à bebida alcoólica deve ser para todos.
Depois que essa medida entrar em vigor, a fiscalização
terá que ser dura para evitar a venda clandestina de
cervejas e outros tipos de bebida – disse.
A idéia de restringir o comércio de bebida alcoólica
nas rodovias federais é debatida no Congresso Nacional
há várias legislaturas. Deputados já apresentaram
uma série de projetos vetando a venda de bebidas e também
determinando exames periódicos de dosagem de álcool
em motoristas. Uma proposta do ex-deputado Corauci Sobrinho(DEM-SP)
não apenas proíbe a venda de bebida alcoólica
como prevê uma multa de R$ 5 mil para o dono do estabelecimento
que vender o produto ao motorista. “O consumo de álcool
é um dos grandes, senão o maior causador de acidentes
de trânsito, não apenas no Brasil, mas também
em todos os demais países”, afirma Corauci na justificativa
do projeto.
O deputado Carlos Eduardo Cadoca (PMDB-PE) propõe que
o Código de Trânsito Brasileiro torne obrigatório
a verificação periódica da dosagem de álcool,
e também de entorpecentes, em motoristas de veículos
escolares, de aluguel, de ônibus e de caminhão.
Pela proposta, a pena para quem for flagrado é detenção,
que varia de seis meses a três anos, além de multa
e suspensão da carteira de habilitação.
“A realização regular de testes de dosagem
de álcool e droga visa verificar o estado físico
do motorista, se é incompatível com a condução
de um veículo. Os infratores devem, também , ser
encaminhados a cursos de reciclagem obrigatórios”,
justifica Cadoca.
O número de acidentes nas estradas brasileiras aumentam
bastante nos dois principais feriadões deste ano, o carnaval
(alta de 8%) e a Páscoa (23,86%). Além disso,
as ocorrências estão mais graves. O número
de mortos cresceu 15% durante a folia e 2,6% na data religiosa,
enquanto o de feridos subiu 13,3% no primeiro caso e 29,25%
no segundo.
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