
Drogas: ONU defende descriminalizar consumo
Publicada em 24/06/2009 - O Globo On Line
RIO - O Escritório de Drogas e Crime das Nações Unidas (UNODC, da
sigla em inglês) divulgou na quarta-feira seu relatório anual sobre
drogas comemorando a queda - ou um cenário de estabilidade - no
consumo de cocaína, maconha e derivados do ópio e alertando para a
alta no consumo de drogas sintéticas, especialmente nos países emergentes, como o Brasil. Além disso, o comércio de drogas já
movimenta US$ 320 bilhões no mundo, o que faz das drogas uma das
commodities mais valiosas do planeta.
Mas o que chamou mesmo a atenção dos especialistas foi a mudança de
postura da ONU no combate ao problema. Antonio Maria Costa, diretor do
UNODC, defendeu a descriminalização do consumo de drogas e mais
investimentos na ação policial e de inteligência contra a
produção e o comércio, especialmente contra os cartéis de drogas
espalhados pelo mundo. Segundo reportagem de Gilberto Scofield Jr. publicada na edição desta quinta-feira do jornal O Globo, trata-se
de uma política fora de sintonia com a abordagem mais dura dos EUA e
seu Escritório para Política de Controle de Drogas, cujo recém
nomeado titular, Gil Kerlikowske, também participou do lançamento
do relatório. Para especialista, medida enfrentará resistência.
- As pessoas que usam drogas precisam de ajuda médica, não de
retaliação criminal - disse Costa, que fez um apelo para que os
países ofereçam tratamentos mais acessíveis para os dependentes.
Mas o jornalista Ryan Grim, em seu blog no jornal online Huffington
Post, lembra que Kerlikowske já afirmou à mídia sua oposição a
uma abordagem mais tolerante com usuários ("descriminalização não
está em meu vocabulário", disse ele) e que a própria ONU desdenhou
da bem-sucedida política de combate às drogas de Portugal - que
prega o tratamento para usuários e o combate policial ao tráfico -,
anunciada em 2001, para voltar atrás agora.
"O Conselho de Controle Internacional de Narcóticos estava apreensivo
quando Portugal mudou sua lei em 2001. Mas após uma missão ao país,
em 2004, o conselho notou que o uso abusivo das drogas continuava
proibido. A prática de isentar a posse de pequenas quantidades de
processos judiciais é consistente com os tratamentos de controle
internacional. E parece que o número de problemas relacionados a drogas caiu", diz o estudo.
Ainda assim, as Nações Unidas desaconselham a legalização das
drogas como forma de combate ao vício e ao tráfico. Trata-se de
outra novidade. Afinal, nos relatórios anteriores, a questão da
legalização sequer foi abordada. Antonio Maria Costa chegou a
chamar a legalização de "erro histórico".
- Drogas ilícitas são um perigo à saúde. É por isso que elas
são, e devem continuar, ilícitas. Um mercado livre para as drogas
poderia espalhar uma epidemia (de vício), enquanto um mercado
regulado (como o atual) cria um mercado negro paralelo. A
legalização não é uma varinha mágica que vá acabar com as
máfias ou o vício - afirmou Costa, observando que o combate ao
mercado paralelo é mais fácil que o combate à uma epidemia.
Outras conclusões do relatório mostram uma atividade menor nos
maiores mercados produtores. A produção de ópio no Afeganistão,
por exemplo, que responde por 93% da produção mundial, caiu 19% em
2008. Na Colômbia, as plantações de coca foram reduzidas em 18%
ano passado, em comparação com 2007. A produção global anual de
cocaína, de 845 toneladas em 2008, é o menor patamar dos últimos
cinco anos. A maconha continua sendo a droga mais consumida, mas
ainda que o consumo e a produção tenham estabilizado, o seu
componente THC, prejudicial à saúde, aumentou na fabricação da
droga.
O relatório também mostra que as rotas do tráfico estão mudando
por conta de ações policiais integradas em nível internacional,
com impacto na oferta em mercados como o da América Latina e na África.
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